quarta-feira, fevereiro 19, 2014

âmago

amargo
de tão amargo, doce
o que devia calar em mim
fala
o que devia ser silêncio
dor
o que precisa ter
perde
todo dia parece o último
todo último, primeiro
e o primeiro
tudo o que eu preciso
meu eterno doce

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

A dor

Hoje ela é bem maior que ontem
Ontem de tão grande saiu pela boca
Anteontem a senti no útero
Saindo pelas pernas
Amanhã será na mão
Que já trêmula, não aguenta
Escrever calmamente
Mais dois meses e a dor
É no meio da cabeça: dor de bala perdida
Se eu morrer amanhã, saibam:
Foi dor eterna no coração!

poesia para o medo

Lembro-me das árvores na praça da independência
Na memória viva, um conto, a assembléia e folhas.
Minas é tão quente e seca
Só meus cabelos ficavam incríveis
A pampulha deserta, o mineirão enorme
E minhas pernas trêmulas denunciavam o medo
Ainda assim, Minas Gerais me pareceu linda
Se eu soubesse que aquilo era medo, não passaria do aeroporto
As árvores me acalmavam e tudo que eu queria era que tudo
Tudo aquilo me que acalmava e dava medo fosse fake


quarta-feira, janeiro 08, 2014

ob ob servando

As garças brincam
na estranheza do lixo
uma beleza tão crua
quanto o lodo do rio
ninguém observa
a dança branca
nas águas negras
só uns homens berram
como animais pré-históricos
homens das cavernas
o rio calmo leva pessoas,
eu e lixo que só
Só eu percebo

segunda-feira, janeiro 06, 2014

Salvador, o sol e a saudade

cada dia mais mista
incrível, arisca
a cidade me olha
com sabor novo em folha
o mesmo sol, a mesma hora
o mesmo mar
a saudade até melhora
o povo alto e lindo
a vista que é do mar cristalino
energiza meu dia
e me faz voltar
mesmo quando não queria


quarta-feira, julho 31, 2013

[sem nome]

quando tudo dói
quando o peito brota
quando a cama aperta
só resta o verso
o inverso do alívio
outro lado do amor
quando a chuva dói
quando a cabeça cai
quando a saudade vem
só há palavra
concretude sensível
dor indizível
hipertensão
quando a noite convulsa
só a caneta salva

terça-feira, julho 09, 2013

O dia

segunda tudo para
para raio
para brisa
para nóia

tudo parado e eu ando
do final da Av. Norte
à Conde da Boa Vista
para tudo
para todos
para lisa

para um dia comum
em que a chuva não
para
para lax
para fina
invento para frases
tento parar

quarta-feira, abril 24, 2013

observação

falta pouco
pra quinta
e Recife nem respira
os olhos
magnéticos
na rua
atraem
minha saudade

coisa feita
diria minha vó
como são as
histórias nossas
rápidas
passadas
perdidas
como um olhar
da janela do Caxangá

domingo, abril 21, 2013

zona norte

aluga-se
um preto sentado na calçada
aluga um tempo
é Santo Amaro
na sombra quente
ele desafia a gravidade
da pressa
e é metafisicamente possível
ver os que passam
como instantes eternos
aluguei aquela sombra

terça-feira, abril 02, 2013

continum

é num lapso desse que eu vou
vou de viagem
e compro passagem
pra onde passando
tenho tudo e tudo sou


negrume

no negrume da noit
só a gente anda
escuro como o chão
o betume
o céu
pretos reluzem
a meia noite
iluminam ruas
só eles caminham
uns correm
eu fico
pra ver que risco corre
toda aquela beleza


da falta

do que eu sinto falta
é do que eu menos sinto
ar, carinho, abrigo
Recife me deu asas
faltas, ninhos
saudade é apelido curtinho
pra dor latente
que nem o rio brilhante
sinto tanto
tudo muito
mal cabe num versinho


quinta-feira, março 21, 2013

Mais um dia pra lembrar e cantar


Peço mais uma vez licença aos meus poemas para falar de negritude. Hoje, há exatos 53 anos acontecia o massacre de Shaperville, onde num protesto pacífico sul-africanos morreram por protestar contra a lei do passe.
Apesar do peso desse dia e de todos os acontecimentos dessa semana que passou e que nos mostrou as mais incríveis faces do racismo, homofobia e discriminação, trarei no meu texto uma palavra de força, uma canção de alento e uma visão de dias melhores. Não pelo meu otimismo - que aos poucos tem se apagado com tanta coisa horrenda - mas pelo meus irmãos, os de sangue e os da luta. Por eles que ao meu lado blogam, dão entrevistas, fazem rap na escola ou ainda me indicam lindas canções de amor.


Meu texto pretensioso quer dizer quem fomos e somos: Marleys, Luislindas, Malcons, Ivones, Joaquims, Gabrielas, Leandros, Simonals, Angelas e Ellens Olérias que invadem os lares, os ouvidos, os livros e as ruas. Que hoje visibilizados pela internet ou pelos nossos discursos precisam ser os espelhos, os exemplos de luta e vitória (sim, ainda falta muito, mas já conseguimos algumas coisas).
Apesar de cada aperto no coração ao ouvir declarações desnecessárias ou por não ouvir nenhum pedido de desculpa, me inflamo com o espírito dos ancestrais e escrevo. E falo e canto.

"Tudo isso pra quê, né? O Fraga podia ter pedido desculpas. Era só isso, sabe. Admitir que não teve intenção de ofender, mas que, como ofendeu, se sente muito mesmo. Se o pai dele é negro, ele devia saber como essas coisas doem. E quando a gente machuca alguém, mesmo sem querer, a gente pede desculpa, sabe. Imediatamente. Pisei no seu pé? Desculpa. Não foi por querer, mas desculpa. " Jeanne Callegari sobre o caso Ronaldo Fraga na SPFW

É só dizer que errou humanidade, que a gente faz o resto. A gente tá fazendo mesmo sem o pedido, não é? Juntos já avançamos e não descansaremos enquanto as notícias não forem melhores. Não posso deixar passar nada porque me dói e dói meu irmão, não é Leandro?
Nossas intenções são as melhores e hoje em respeito e homenagem ao meu passado que foi assassinado e hostilizado em manifestações na África do Sul, Brixton ou Alabama eu canto uma canção de esperança e solidariedade. Canto para todas as mulheres negras, em homenagem as rappers, as domésticas da minha rua, canto em solidariedade a moça do Distrito Federal e ao guardador de carro da frente do Paço Alfândega.
Ainda falta muito, mas até aqui me trouxe Luther, Mandela, Mãe Menininha, Spikee Lee, Leila Andrade, Tia Ciata, Elisa Lucinda, Sueli Carneiro, Morgan Freeman, Tupac...